O padre me chamou para conversar sobre a música na Missa. E agora?

quarta-feira, 17 de maio de 2017

 

Como lidar com os conflitos entre músicos e padres

Todo músico, em especial todo coordenador de ministério de música, um dia sentiu seu coração bater acelerado quando o padre o convidou para uma reunião sobre “como anda a música na Missa”. Se o relacionamento entre os dois é agradável e baseado em confiança, tudo bem, mas se existem desacordos, incompreensões ou mágoas antigas, uma reunião que poderia realinhar expectativas e melhorar o serviço litúrgico pode se tornar um campo de batalhas. O que fazer para evitar que isso aconteça?

1 – A melhor maneira de vencer uma discussão é evitá-la!

Sim! Comece a reunião antes de estar diante do sacerdote. Mentalmente, organize seus pensamentos, dê limites à imaginação e fantasia, cuide das mágoas, para que não sejam elas as redatoras das suas falas. Pesquise, nas Sagradas Escrituras, momentos em que Jesus conversou com os apóstolos, quando os profetas exortaram os reis e os primeiros cristãos conversaram entre si (Atos dos Apóstolos e Epístolas). Leia, medite e reze. Isso organizará sua mente e seu espírito, dando-lhe uma atitude de boa vontade.

2 – Escute com atenção sincera

Não tenha pressa em sair reivindicando os anseios e necessidades do ministério de música! Ouça! Ouvir com atenção sincera deixa mais à vontade a pessoa com quem estamos dialogando, deixa-a mais desarmada e confiante de que está sendo acolhida. Além de boa educação e sinal de respeito à hierarquia, é também uma boa estratégia para construir um diálogo verdadeiro e tranquilo. Demonstre sempre boa vontade.

3 – Não critique, não condene nem se queixe

Li esse conselho em um livro muito interessante, e sugiro que você o adquira: ‘Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas’, de Dale Carnegie. Todos nós queremos fazer amigos, e precisamos, muitas vezes, influenciar para conquistar aquilo que é necessário para um bom desempenho em nosso ministério.
Ninguém gosta de ser criticado! De ouvir: “Está acontecendo exatamente como eu disse!” ou “Eu avisei que isso não daria certo!”. Isso coloca nosso interlocutor em uma posição frágil, como se seus esforços tivessem sido em vão, como se sua competência tivesse sido demonstrada incompetente. Quem, depois disso, teria condições de ser proativo, criativo, disponível? Colocar-se no lugar do outro é uma ótima forma de obter a confiança da pessoa com quem estamos nos reunindo.
Evite dizer “você está errado”. Ninguém gosta de ouvir isso. Não se trata de tratar o outro como ele quer ser tratado, mas de buscar um caminho de tranquilidade. Dizer que o outro está errado não vai fazer com que ele devolva a resposta: “Diga-me onde, quero acertar!”. Dizer que o outro está errado vai, simplesmente, acionar as mágoas e frustrações passadas e trazer à tona sentimentos e rancores, que em nada contribuirão para o bom andamento da reunião.
Honesta e verdadeiramente, tentemos entender o ponto de vista do outro. Demonstremos simpatia. Às vezes, sentimos, mas não demonstramos, e esse é um erro grave de uma sociedade que não alia sentimento à razão. Quando alguém demonstra simpatia por nós, tendemos a ser mais abertos às sugestões e ponderações que possam vir do outro lado da mesa.

4 – Lembre-se de explicar com clareza suas ideias, e de forma repetida!

Muitas vezes, remoemos tantos nossos pensamentos e ideias, que eles se tornam tão claros e absolutamente óbvios para nós! No enanto, nós nos esquecemos de que, quando as apresentamos para alguém, pode ser a primeira vez que aquela pessoa olha por aquele prisma. É preciso explicar, de forma clara, e repetir muitas vezes; às vezes, de forma espaçada.
Dou um exemplo: quando dou aula de violão, aviso meu aluno sobre uma técnica que ele está fazendo de forma errada. Demonstro o porquê e as consequências. Ele, no entanto, não consegue fazer, naquele momento, de forma diferente; então, retruca a sentença: não consigo! E abandona minha sugestão. Na semana seguinte, encontro um vídeo de algum músico tocando da forma como eu havia sugerido ao aluno e mando o link pelo telefone com a mensagem: “Foi isso que lhe falei! Se ele consegue, você também consegue!” Não recebo resposta. Na aula seguinte, inicio tocando o trecho em questão e pedindo ao aluno que tente algumas poucas notas do “meu jeito”. Ele parece mais disponível e não nega a tentativa. Na semana seguinte, lá está ele fazendo toda a parte com a técnica adequada.
A mente é progressiva, ela precisa se acostumar com as ideias. Precisamos torná-las familiares. Assim será natural que sejam reconhecidas e aplicadas como sendo um “bom caminho para solucionar aquela dificuldade”.

As quatro possibilidades diante de problemas entre o ministério e o sacerdote

Servir é desafiador. Às vezes, tudo vai bem, mas, às vezes, tudo vai muito mal. Tendemos a adotar quatro atitudes diante das dificuldades enfrentadas. São elas:
  • Desistir
Apenas seguimos nosso caminho e dizemos a nós mesmos: “não é nosso lugar”, “não tenho nada a acrescentar”, ou ainda, “não faço diferença, porque ninguém aceita as minhas sugestões e críticas”. Desistir pode até ser uma solução momentânea, mas, lá adiante, você se enfrentará novamente com a mesma situação. Desistir não constrói nada a longo prazo.
  • Negligenciar
Você diz para si mesmo: bem, se é assim, também não vou me “matar” para realizar minha função. Farei o mínimo possível. Mas no fim, o que acontece é que você começa a se desinteressar de tal forma, que tende a deixar sua produtividade na dimensão do “suficiente”. Lembre-se da frase de Santo Agostinho: “Não basta fazer coisas boas. É preciso fazê-las bem!”.
  • Persistir
Persistir é “ranger os dentes e aguentar. Trabalhar duro, mesmo que o serviço seja sufocante”, diz-nos Adam Grant no seu livro ‘Originais’. A longo prazo, a sentença é a animosidade no ambiente e o desânimo que, invariavelmente, pode levar a desistir ou negligenciar. Persistir não organiza novas relações e dinâmicas de trabalho.
  • Discutir
Discutir não é ganhar a discussão, é buscar o caminho que possibilite novos horizontes e rotas, é criar troca baseada em confiança, saber que fazemos todos parte de um mesmo corpo. É minimizar disputas de poder e argumentação. É colocar o serviço à frente de quem está servindo.
Discutir organiza o espaço físico e emocional de um ministério, organiza um diálogo franco e generoso com o sacerdote e desenvolve um ambiente de confiança e valorização, onde haja críticas, para achar melhores soluções, mas também elogios que reforcem os acertos realizados. Assim como Jesus, que não deixava de apontar os erros, mas não era obstinado nem apressado em criticar os outros com quem se encontrava.

Augusto Cezar
Músico da banda DOM, compositor, escritor de 3 livros, professor e palestrante. Não sou nada do que realizei. Fui e sou tudo o que amei e amo. Além disso, não sou mais nada. www.augustocezarcornelius.com.br

Fonte: Canção Nova

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